Revolue: um presente em Wynwood
Celebrando dez anos de caminhada, o artista paulistano
fala sobre sua visita à feira Miami Art Basel e sua estadia na disney do
graffiti. Quer saber o que rolou lá, se liga aqui. E let´s Revolue!
Às vésperas de completar uma década de Revolue, projeto iniciado ainda em 2004 com
a intenção “de rabiscar, pintar, sujar, escorrer e criar todo tipo de arte -
seja ela qual e onde for” -, o paulistano Marcus Vinicius Coelho, mais
conhecido pelo nome da marca que defende, decidiu investir e se presentear com
a realização de um antigo sonho: visitar a renomada feira Art Basel de Miami e
aproveitar a efervescência cosmopolita de Wynwood Art District, sub-distrito onde
se encontram as galerias e os famosos murais que dão forma a sua não menos
conceituada mostra paralela. No entanto, para não ficar apenas nos devaneios da
badalação local, algo do tipo “Um Maluco em South Beach”, o artista fez do
esperado passeio uma verdadeira missão, na qual deixava a paulicéia desvairada
com o claro objetivo de absorver novas influências e levar suas obras para
outro tipo de público (mercado), principalmente galeristas em busca de novos
talento$ - os novos merchands que, se não transformam traços de jet em ouro, fazem
dos grafiteiros os rock-stars do momento. Hotel reservado, ingressos comprados
(os quatro dias da feira por US$ 90), pastinhas em baixo do braço e lá foi ele,
com mais dois amigos aventureiros, correr atrás de novos contatos e vivências,
mas ainda sem saber que, do dia 28 de novembro, no pré-Basel, até 14 de
dezembro, no pós-festa de Wynwood, a sua viagem sairia “200 vezes melhor do que
o esperado”, como ele mesmo descreveu em entrevista ao Ctrl+Alt+Rio, na qual
fala um pouco sobre seu trabalho e, é claro, suas andanças por um dos maiores
encontros de arte urbana do mundo. Quer saber o que ocorreu por lá, basta ler
aqui… Diz aí, Revolue.
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Revolue ao lado de Mr. Brainwash |
“É
algo inexplicável. A cidade inteira parece absorver o clima da feira, tudo
respira arte e você pode encontrar obras espalhadas por todos os cantos, desde
de bares, em mini-galerias, até no hall do próprio hotel. O chocante é você
acompanhar tudo aquilo de perto, os caras que sempre admirou, os trampos em
seus detalhes, e sem ninguém te cobrar nada para falar ou tirar fotos. Me
surpreendeu e muito essa questão”, resumiu Marcus ao explicar que, através de
um simples aplicativo gratuito, podia acompanhar toda programação paralela e acessar
uma espécie de mapa com as obras espalhadas nos arredores da área antes ocupada
apenas por antigos armazéns e terrenos abandonados. A partir daí, assim como
todos os presentes, era desbravar, descobrir e aproveitar. “No primeiro rolê,
eu já dei de cara com o (também paulistano Eduardo) Kobra, artista que admiro
muito. Aí, batemos um papo e tal. O cara foi super simpático e atencioso.
Aliás, no geral, todos se mostravam dispostos e bem receptivos”, apontou
Revolue, que, na sequência, apenas alguns metros à frente, já diz ter se
deparado com outro “monstro” em ação, desta vez o austríaco Nychos (The Weird),
“aquele que costuma apresentar seres e animais desmembrados em suas telas e
murais”. “Sempre tive contato com suas obras, mas você ver de perto um artista
reconhecido internacionalmente é outra coisa... Lembro-me de ter chegado a
pensar: ‘isso é real, existe mesmo’. É fabuloso ver a dimensão dos trabalhos e
seus detalhes ou, por exemplo, encontrar o Mr. Brainwash em um local
inesperado”, completou o artista paulistano que já esteve na Munique Fair, na
Alemanha, e também já residiu em Londres.
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Trabalho realizado pelo artista paulistano Eduardo Kobra. |
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Obra de Nychos "The Weird" |
Se as ruas de Wynwood traziam o calor da presença impactante dos artistas, em
um ambiente amistoso de informalidade, de contato direto com publico e obras, a
Miami Art Baesel, por outro lado, se mostrava mais fria, na temperatura da
champanhe que basicamente era servida aos compradores de arte no Centro de
Convenções de Miami. “A feira era mais profissional, mais chic. Sempre tinha um
cara para lhe servir e dar explicações sobre as obras, enquanto o publico
frequentador era visivelmente mais velho e com um poder aquisitivo maior. Lá dentro
era tudo certinho e, inclusive, com espaços reservados aos colecionadores”,
descreveu Revolue, que, depois de ter adquirido as entradas para os quatros
dias de feira, ganhou o direito de marcar presença na badalada pré-estreia da
próxima edição – caso pague por isso, claro. “A Art Baesel tem mesmo cara de
museu, mas, sem dúvida, vale a pena. Para exemplificar, lembro-me de ter
encontrado um Baskiat de 85 e, logo ao lado, um óleo sobre tela de Picasso
datado em 68”, contou o artista sem esconder a empolgação com sua viagem.
Embora exista uma clara distância entre tais universos, os eventos se mostram
mais complementares do que adversos, tendo em vista que arte é arte independente
do lugar, seja no centro de convenções, nas paredes dos comércios locais ou em Wynwood
Walls, a mostra fixa (e aberta) com os principais nomes da arte urbana
internacional. Aliás, nesta quinta edição da mostra paralela, o famoso espaço
foi tomado pelas mulheres – um reflexo da atual sociedade, como definiu o
curador Jeffrey Deitch, e do projeto Women on the Wall, que contou com a
participação das artistas Aiko, Miss Van, Fafi, Maya Hayuk, Faith47, Lakwena, Kashink, Sheryo, Olek, Toofly, Claw Money, Jessie & Katey, Myla, Shamsia Hassani e da lendária Lady Pink.
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Miss Van em ação. Imagem: Martha Cooper. |
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Maya Hayuk por Martha Cooper. |
Além da quantidade e diversidade de obras vista nas ruas de Wynwood, onde
alguns artistas cariocas marcaram presença em 2012 em nome do Instituto Rua (ArtRua), outro
aspecto que chamou atenção do paulistano na disneylândia do graffiti foi a
receptividade, algo que, no minimo, já o deixava mais esperançoso em relação a
sua citada missão. “Saí daqui com uns três contatos adiantados, mas cheguei a
falar com mais de 30 (representantes e galeristas) por lá, incluindo alguns
brasileiros (duas galerias de São Paulo), que, por sinal, eram os que se
mostraram menos abertos. Alguns faziam questão de te dar um retorno e outros
demonstravam mais interesse, mas, no geral, todos eram bem atenciosos e faziam
questão de ver meus trabalhos ou saber do meu conceito. Acredito que consegui
fazer boas conexões, como uma com uma galeria de Seul (Coréia do Sul)”,
detalhou o paulistano, que, com dez anos de Revolue na bagagem, reconhece as
difulculdades em (sobre)viver da própria arte no cenário nacional – “ainda
muito fechado”, segundo ele. “Sei do meu potencial, acredito no meu trabalho e
só fui lá fora buscar esse ‘business’ porque não encontrei nada por aqui, onde
a cena ainda é muito restrita, com muita panela. Lá o tratamento é muito
diferente. Enfim, a gente tem muito o que crescer”, apontou Revolue ao ressaltar
que, enquanto as galerias aqui costumam representar entre seis e dez artistas,
lá fora elas chegam a ter até 30 artistas. Como uma própria estrutura de
comercialização de suas obras e sem nenhum tipo de intermédio, Revolue o artista
segue na luta possui nenhum lugar cativo na cena nacional - “ainda muito
restrita”, segundo ele. Motivado com os resultados de sua viagem, na qual
afirma ter “crescido no sentido cultural da palavra”, o artista inicia 2014 repleto
de ideias e projetos a serem lançados e relançados, como uma série de casinhas de
passáro e um trabalho inteiramente dedicado à caligrafia (Sketch). Saiba mais sobre
o trabalho do artista no site www.revolue.com e, como ele mesmo costuma dizer, let´s Revolue!
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