Allan
Sieber: três cores e um novo desafio
Perto de completar 20 anos de carreira, o quadrinhista gaúcho
se distancia das tiras e cartuns para dar forma a uma nova exposição:
“Racionamento de cores”. Confira a entrevista...
Reconhecido por seu humor sarcástico, pela premiada
animação “Deus é Pai” e inúmeras tirinhas geniais – como “Bifaland, A Cidade
Maldita”, “Vida de Estagiário”, “Preto no Branco” e “The Mommy's Boys”, entre
outras -, o quadrinhista Allan Sieber, prestes a celebrar 20 anos de carreira,
resolveu se desafiar e buscar novos ares em uma nova exposição, intitulada
“Racionamento de cores”, em cartaz desde a última semana na loja e galeria La
Cucaracha (também dedicada ao universo das histórias em quadrinhos). O curioso
desta mostra é que, ao contrariar a lógica, o artista gaúcho decidiu se
distanciar das tiras e cartuns para explorar apenas três cores primárias (vermelho, azul e amarelo), com
as quais elaborou 13 desenhos inéditos, de 40cm x 28cm, feitos em aquarela e
pastel oleoso. O resultado é surpreendente, e a mostra, por sua vez,
imperdível. No entanto, antes de se apressar em visitar o aconchegante espaço,
saiba um pouco mais sobre o que quadrinhista tem a dizer sobre esse
racionamento de cores e, inclusive, sobre a realidade ainda desanimadora da
animação nacional.
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O quadrinhista gaúcho Allan Sieber. Imagem: Folha de SP. |
1.
Primeiramente, como surgiu a ideia (ou convite) de montar essa exposição tão inusitada
na La Cucaracha?
- Eu queria fazer algo que não envolvesse só
humor ou dependesse do humor. Na verdade, meu humor está cada dia mais
combalido. Propus para Matias Mad Maxxx, o dono da La Cucaracha e amigo de
longa data, e ele topou.
2.
De onde veio a necessidade de trabalhar com esse chamado “racionamento de
cores” e porque, acredito que pela primeira vez, optou por não usar tiras e
cartuns na exposição?
- Gosto de trabalhar com limites. Me impor
algumas limitações e ver o que sai trabalhando dentro disso. Tiras e cartuns
terão vez numa grande exposição para o ano que vem, por conta dos meus 20 anos
de carreira.
3.
Há algum objetivo ou influência mais palpável para essa mudança de horizonte,
como se estivesse saindo da suposta zona de conforto?
- O desenho mais selvagem e uma vontade de sair
disso, do cartum e da tira. Tem uma hora que enche o saco. Como já bem
vaticinou o bardo Wander Wildner, “eu não consigo ser alegre o tempo inteiro”.
4.
Ao observar as ilustrações da mostra, me chamou atenção a relação entre figuras
e escritas. Poderia falar mais a respeito, de onde veio isso? – como Pogo!
e Alfaro (que tem até um nariz do Eteimoso mesmo, rs.)
- É algo que sempre esteve presente no meu
trabalho: a tipografia. Adoro desenhar letras e tipos. Posso dizer até que é
uma das coisas que acho fácil fazer e me dão mais prazer, brincar com letras.
5. Além desta
exposição, o que anda aprontando ultimamente? Alguma novidade saindo do forno
da Toscographics? O retorno da Tosco TV poderia ser uma delas?
- Terminei o piloto da série “Mar de Paixão”,
uma espécie de novelona mexicana em animação. Coisa da cabeça de André Dahmer e
Arnaldo Branco. Adoraria voltar com o Tosco TV, mas, aparentemente, foi um
projeto muito ousado: animação adulta no Brasil.
6.
Dentro de uma realidade adversa, mas com inúmeros talentos, o que falta para os
quadrinhos (não infantis) serem mais reconhecidos e, é claro, valorizados (não
somente no Brasil)?
- Dificil isso. Talvez nunca aconteça. Não me
pergunte porque, mas acho difícil os quadrinhos serem respeitados como a
literatura ou a música, por exemplo. Também tem muito quadrinista burro. Isso
deve ajudar.
7.
Acredita que isso virá a ser uma realidade ou o jeito é migrar para o cinema
mesmo? Porque os quadrinhos parecem estar restritos à resistência (da essência
marginal)?
- Não, infelizmente quadrinho não vende bem em lugar
algum, com excessão de França e Belgica. Estamos falando de quadrinhos adulto,
não de super-herói, mangá ou infantil. Daniel Clowes, por exemplo, talvez o
maior quadrinista da atualidade, vende pouquissimo. Acho que ele só chegou a
ver uma grana decente com a adaptação dos álbuns dele para o cinema. A própria
Fantagraphics, a maior e mais legal editora do mundo, está sempre para fechar
as portas. As pessoas não levam quadrinho muito á sério talvez por culpa dos
proprios quadrinistas, que, em grande parte das vezes, ADORAM cultivar uma aura
miserenta. Tomar cerveja quente em copo de plástico, esse tipo de merda.
8.
Para finalizar, mais por curiosidade, ainda se sente um gaúcho depois de mais
de anos comendo joelho e tomando “refresssco de caju”? Como foi se adaptar ao
Rio e ao estilo de vida do Rio?
- Fiquei
dois meses sem sair de casa assim que me mudei. Mas, depois passou. Hoje, eu
acho até normal ouvir DEMORÔ FORRMÁ. O João Gordo que fala que sotaque de
carioca é sotaque de ladrão, hahaha.
“Racionamento de cores”. La Cucaracha
Rua Rua Teixeira de Melo, 31H. Ipanema.
Visitação: das 11h até 21h. Grátis.
Rua Rua Teixeira de Melo, 31H. Ipanema.
Visitação: das 11h até 21h. Grátis.